O Fantasma do Farol

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Era uma vez um garoto. Quando a nossa história começa, ele tinha por volta de seus 14 ou 15 anos. Quando termina, ninguém sabe ao certo. Ele morava junto com seu pai no farol que ficava em uma pequena praia de uma cidadezinha litorânea de Portugal. Sua mãe havia falecido quando ele ainda era muito pequeno, e não tinha muitas lembranças dela. Apenas ouvia seu pai contar histórias a respeito dela. Dizia que era uma mulher muito boa. A gravidez havia sido de risco, pois os dois já se encontravam em uma idade mais avançada, e, como eram pessoas simples, não tinham o costume de ir até hospitais e coisas do tipo. Até porque o hospital mais próximo ficava a centenas de quilômetros de distância. E, para o pai do garoto, sua mãe havia falecido devido a alguma complicação referente ao parto. Mas os anos passaram e a vida continuou.
O garoto vivia sozinho com seu pai. Praticamente não tinha amigos, apenas alguns conhecidos, como o dono do mercadinho da vila que ficava próximo e uma menina que aparecia por ali de vez em quando.
Aconteceu que, certa noite, estavam o garoto e seu pai no farol, quando iniciou-se uma forte tempestade. As ondas vinham cada vez mais altas, chegando a alturas de quase 2 metros. A água batia com força na mureta que cercava a porção do farol de frente para o mar. O vento uivava, como uma peça de uma ópera de tragédia. O menino nessa noite sentiu que algo não estava bem. Abraçou firme seu pai, como se ainda fosse um garotinho. Algum tempo depois, enquanto se preparavam para irem dormir, o pai do garoto viu uma pequena luz piscante no mar. A espinha do velho homem gelou. Era um sinal de SOS. Alguém no mar clamava por ajuda. O garoto encarou o pai e eles ficaram ali por um tempo se olhando. Foram segundos que duraram uma eternidade. O pai desceu as escadas o mais rápido que pôde e agarrou o bote e o remo. Ele iria enfrentar a tempestade para salvar aquele que pedia ajuda. E lá se foi. O garoto então virou menino. Sabia que ele não iria voltar. E chorou como não fazia há muito tempo. O pai havia partido.
Na manhã seguinte, ele desceu até a praia e encontrou um pedaço de remo quebrado. Mais uma vez chorou. Abraçou o remo e deitou-se na areia. Não se sabe ao certo quanto tempo ele ficou ali. Talvez horas, talvez dias… só levantou-se quando percebeu que a vida continuava. Precisava continuar. Ele era o dono do seu destino. E assim o fez.
Os dias se passaram. Os meses se passaram. Os anos se passaram. E ele foi ficando ali no farol, sozinho. As pessoas também passaram. Mas ele não soube como tratá-las. Elas gostavam dele, e ele também gostava muito delas. Mas sentia uma insegurança muito grande. E com isso as pessoas partiam e ele ficava. Amou muitas vezes, mas não soube demonstrar. Talvez perdera a sua felicidade numa dessas tardes, quando viu os olhos escuros mais lindos do mundo. Pensou em dizer algo, mas teve medo. Quando disse, já era tarde. Havia partido.
Nas noites que passava no farol, ele sentava-se e observava o mar, aquele que ia, mas também voltava. Continuou ali sentado por muito tempo. Até que perdeu a conta das horas, dos dias, dos anos…
E ficou, enquanto os outros partiram…